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A genica inesgotável das senhoras de uma certa idade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.09.10

 

Raros são os homens que mantêm esta genica na velhice, mas existem. Esta genica de que vou falar hoje é própria das senhoras de uma certa idade, a partir dos 80 e tal aninhos, as felizardas! Bem, as que têm a sorte de viver no seu espaço-tempo próprios, com alguma autonomia. Não estou a falar das que, por circunstâncias da vida, não têm essa sorte.

Já tinha constatado este fenómeno na vida real, não precisava de ver documentários ou filmes a confirmar isto mesmo. Lembro-me em especial de um documentário filmado num lar de idosos (palavra horrível), em que a senhoras se queixavam de ter perdido os maridos há anos e as que não os tinham perdido, era ainda pior!, viam-nos dormir todo o tempo sentados num cadeirão. Este desequilíbrio é terrível a partir de uma certa idade. Porque as mulheres, quando mantêm os neurónios afinados, têm uma necessidade inesgotável de comunicar, de conversar, ou de se entreter numa qualquer actividade, algumas até cantar e dançar. Neste lar as actividades eram promovidas, assim como a autonomia (se os nossos lares fossem todos assim...), e eram as mulheres as mais entusiastas. O pessoal pareceu-me especializado, não notei ali tiques de paternalismo, insuportável mania dos nossos técnicos, por melhor intencionados que sejam! Davam-se passeios de autocarro, e se não podiam ir ao teatro ou aos espectáculos, havia sempre teatro ou espectáculos a vir ao lar. Mas só alguns homens participavam na animação. A maioria ou dormitava num cadeirão ou mostrava-se alheia a tanta agitação.

 

Há, evidentemente, outras razões para este desequilíbrio: a idade é melhor para as mulheres do que para os homens, esse é um facto. No Japão, por exemplo, noutro documentário que vi, os homens encaravam muito mal o regresso a casa depois de uma vida de rotina de trabalho no exterior. Mas pior do que eles, eram as mulheres a adoecer com a presença dos homens todo o dia em casa. Têm até uma expressão muito elucidativa para designar os homens na reforma: uma folha de outono molhada colada à parede. Estão a ver? Muitas acabavam no psiquiatra e foram aconselhadas a mudar as suas rotinas: muito bem, os homens ficam em casa, elas saem de casa, há tantas actividades possíveis em grupo, cursos de arranjos de flores, por exemplo, ginástica, natação, yoga, voluntariado, ou mesmo voltar a estudar. Mesmo por cá, vemos imensas mulheres a fazer o mesmo. Embora por cá se encontrem sobretudo viúvas, que querem manter uma vida útil e activa, e não encarar a casa vazia todo o dia.

 

Se estas mulheres tiverem a sorte, como disse, de se manter activas e com alguma autonomia, podem ser extremamente perspicazes, nada lhes escapa. Os seus neurónios trabalham numa espécie de ligações rápidas e directas, em auto-estradas, e ligam só o essencial de cada problema que lhes apresentem. É certo que há ali interferências de preconceitos culturais, algum peso da tradição, o que é certo e o que é errado, o que é próprio e o que é impróprio, mas fora isso são muitíssimo práticas e inteligentes. Lembram-se daquele filme com o Peter Sellers? Em que um grupo de ladrões do pior invade a casa de uma velhinha e, quando se vêem descobertos, a tentam matar mas não são bem sucedidos? A velhinha é simplesmente uma valentona, nada a demove ou intimida!

 

Esta energia e coragem vem não se sabe de onde. Eu própria já me senti incapaz de acompanhar a genica de algumas senhoras de idade digamos assim, uma experiência nada nada edificante. Às vezes imagino-as ligadas a uma pilha Duracell, a sério! Aliás, foi o que sentiu o protagonista de um filme italiano, simplesmente delicioso, que vi semanas atrás na RTP2, Pranzo di Ferragosto. Aquele almoço em Agosto deixou-o esgotado, de rastos. E tudo começou com várias contrariedades: o mau feitio da mãe, pouco receptiva a receber convidadas em casa; uma das convidadas, amuada, que se fechou no quarto, deixando-os privados da sala de jantar para as refeições. Só a tia Maria, a especialista da pasta, se portou bem desde o início. Além de o orientar na pasta, acolheu a mãe do médico, a terceira convidada, a pedido do médico, pois estava de banco nessa noite. Contrariedades e responsabilidades: a mãe do médico vinha com restrições alimentares mas atirou-se à pasta, de noite e às escondidas, farta de comer legumes cozidos. A convidada que tinha amuado saiu de casa em plena noite sem avisar ninguém, foi descobri-la toda apinocada numa esplanada. Quando finalmente a convenceu a regressar a casa, queria jogar às cartas, dançar, e ainda se mostrou atrevidota. A paciência do nosso santo homem estava a esgotar-se. Noite mal dormida, de manhã descobre as quatro em alegres conversas, muito animadas. Investem generosamente no almoço e tudo. E ficam a pôr a mesa com todos os requintes enquanto ele vai, com um amigo, de vespa, escolher o peixinho fresco para o almoço. Almoço memorável, todos felizes, vinho fresco, conversas animadas. O nosso protagonista dá por falta do amigo e vai descobri-lo a dormir no quarto, esgotado. Desata a rir. É que ele tinha aguentado até ali. E não é que quando volta ao almoço animado, as senhoras o subornam indecentemente para mais um dia daquele alegre convívio?

Delicioso filme-documentário. Vemo-los dançar em plena sala, no final. Já tinha saudades de filmes-documentários assim... que se aproximam de forma despretensiosa da realidade do dia a dia normal (?) de tantas pessoas por esse mundo fora, vidas simples (??) ou vidas mais complicadas, mas que se podem simplificar quando existem protagonistas assim, com uma paciência de Job...

 

 

 

 

 

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publicado às 09:16


2 comentários

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De Anónimo a 03.10.2010 às 03:35

"a idade é melhor para as mulheres do que para os homens, esse é um facto..."

Ana,

Como homem apenas um cometário (talvez cruel...):
As mulheres envelhecem,,,os homens amadurecem.
Eis toda a dieferença!

Diogo




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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 03.10.2010 às 16:20

Discordo, Diogo.

Estamos a falar dos 80-90 anos.
Os homens aceitam com mais dificuldade o envelhecimento. E revelam menos genica, habituam-se a rotinas sedentarias.
As mulheres movimentam-se mais, permanecem mais activas. Arranjam novos interesses, actividades, convivem mais. E a isso que me refiro aqui.

De qualquer modo, raramente vejo um homem "amadurecer" a partir de certa idade... ou amadureceu na idade da razao (adulto), ou sera um "eterno adolescente".
(estou num teclado sem acentos, "sorry again")
Ana

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